Autores
Hélia Correia
Nasceu em Lisboa, em 1949. Poetisa e dramaturga, revelou­‑se enquanto ficcionista com «O Separar das Águas«. Seguiram­‑se outros romances, como «Lillias Fraser» e «Adoecer». A sua escrita para teatro tem privilegiado os clássicos gregos, destacando­‑se, por exemplo, «Desmesura ­‑ Exercício com Medeia». É também autora de livros infanto­‑juvenis, como «A Chegada de Twainy». «A Terceira Miséria» é o seu mais recente livro de poesia. Distinguida com diversos outros prémios, recebeu em 2013 o Prémio Vergílio Ferreira pelo conjunto da sua obra.
Hélia Correia participa na GRANTA 1 com «Intervencionados», na GRANTA 2 com «Servindo o chá», na GRANTA 3 com «Inferno» e na GRANTA 4 com «Agora morres».

«Contra o novo terror que vem de dentro, de uma fatalidade celular destruidora tanto do oculto como do que vem exposto à superfície, necessitamos muito de recursos. Um amigo segredou­‑me um dia destes: Estás a ouvir? Ploc, ploc! São os neurónios a extinguir­‑se! Milhares deles, hora a hora, no meu cérebro . E puxava­‑me pelo cotovelo para que eu me concentrasse na tragédia. Levava­‑me para o canto, para a sombra, como quem tem avisos para fazer sobre um intruso que já se instalou na sala. Ouvir, eu não ouvia. Mas senti­‑me realmente assustada com o desenho do medo no seu rosto. Receei ver uma aceleração que, de repente, o transformasse em velho e em pó. Fazia­‑me lembrar o envenenado que assiste à sua própria liquefacção. Continua a viver, o meu amigo, não sem tomar todas as precauções.» (De «Intervencionados»)

«Antes das suas cirurgias plásticas, quando o marido ainda não ficava no quarto dos arrumos, ela acordava-o levemente, de maneira a que o seu braço esquerdo a envolvesse, numa coreografia conjugal por todos conhecida e praticada. "Foi só um sonho", é o que se diz. Laura insistia em relatar-lhe pormenores, e não punha naquilo simplicidade. "Tiveste algum carrasco na família", dizia Daniel. Acreditava numa culpa genética. Esfregava-lhe o cabelo, sem convicção, sem acordar mais do que o necessário. Com a repetição, mecanizara. Não cuidara dos filhos. Era em Laura que ele aplicava as pancadinhas paternais, apropriadas para os sustos das crianças. Mas isso fora até se afastar dela.» (De «Servindo o chá»)

«Saiu, mas tomou nova direcção. Cambaleava nos sapatos rasos que assentavam por inteiro na calçada e que tornavam os desníveis das pedras dolorosos. Já aprendera, pois aprende‑se depressa, a sobrepor as bandas do casaco e a cruzar os braços, provocando todo um enrolamento sobre o peito. Era a postura das viúvas, a postura do que murchava. A curvatura defendia e abrigava, era um capote e um ninho. A voz que ela tivera com os filhos, exigindo que não olhassem para o chão, que levantassem a cabeça à mesa, ocorria‑lhe então. E ela sorria, abanava a cabeça, confirmando a inutilidade de tal luta. De um momento para o outro, o bicho antigo recuperava a sua posição. Queria o seu chão, as suas quatro patas. Queria, de facto, a sua natureza. Laura sentia o forro da sua gabardina, o pêlo falso e frio que, pouco a pouco, ganharia calor e até, quem sabe, o evaporar de uma respiração.» (De «Inferno»)

«No percurso de Laura não havia nem um grão de loucura. Não havia um facto com interesse. Casara‑se, parira, cuidara das crianças, divorciara‑se, enfim. Submetera‑se às cirurgias plásticas que a deixaram delicada como um hipocondríaco.» (De «Agora morres»)
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