Autores
José Tolentino Mendonça
Nasceu na Madeira, em 1965. Poeta, ensaísta e sacerdote, é especialista em Estudos Bíblicos e professor na Universidade Católica. A sua obra poética está reunida em «A Noite Abre Meus Olhos» (2014) e escreveu, mais recentemente, «A Papoila e o Monge» e «Estação Central» (2015). No ensaio destacam-se «Leitura Infinita. Bíblia e Interpretação», «O Hipopótamo de Deus» e «A Mística do Instante. O Tempo e a Promessa». Os seus livros estão publicados em vários países.
José Tolentino Mendonça participa na GRANTA 4 com «A quem deixas o teu oiro?», e na GRANTA 9 com «Notas para a minha autobiografia alimentar».

«De facto, fecho os olhos e recordo‑me de coisas tão inesperadas como a minha avó dançando à chuva à medida que a noite avançava, dos seus risos dispersos pelas trovoadas, de ela dormir no chão, sobre uma esteira, de os utensílios ínfimos parecerem nas suas mãos objetos soberanos, da sua doçura extraordinária com os animais, do pano de algodão branco que ela tinha comprado a alguém e conservava para sua mortalha, de ela esconder de mim a sua dor como um guerreiro esconde a sua flecha no mato.» (De «A quem deixas o teu oiro?»)

«Nos anos da minha infância todas as refeições aconteceram, sem excepção, em silêncio. Quando um de nós, dos mais pequenos, tentava imprudentemente contrariá-lo, era mandado calar, sem mais. [...] A ceia de Jesus foi, por isso, a primeira refeição que eu conheci onde as pessoas falavam e, desde logo, associei-a a uma semântica fascinante. Tornou-se, na minha cabeça, uma máquina utópica.» (De «Notas para a minha autobiografia alimentar»)
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